Em defesa do cinema brasileiro e um pouco de história

Em defesa do cinema brasileiro e um pouco de história

As pornochanchadas famosas na década de setenta durante a ditadura militar. Talvez tenha sido daí a “má fama” do cinema nacional. A pornochanchada, uma atualização das Chanchadas dos anos 50, do século XX, misturaram: da chanchada antiga: o humor e a leveza dos assuntos; um pouco de situações picantes e a exposição de algumas partes do corpo feminino num clima erótico. Essa junção de humor ingênuo e erotismo cheio de pudores, em produções baratas era um enorme sucesso.
“O som do cinema nacional é ruim” era o que diziam. Diziam porque viam os filmes. E como viam! Eram sucesso de público. Foi um período de glória do cinema nacional: a bilheteria arrecadada financiava os filmes vindouros.

A economia cinematográfica girava bem até o filme Coisas Eróticas estrear nos cinemas e foi o primeiro filme nacional nas telas de cinema, com sexo explícito. Um sucesso. Mas um sucesso que anunciava a derrocada do cinema nacional. 
Com o advento do videocassete (lembram da fita de VHS?) e a propagação das fitas cada vez mais baratas de sexo explícito, pelo mercado paralelo, para que ir ao cinema? No videocassete, a população poderia ver explicitamente, em casa, o que o cinema mostrava. Tais filmes eram produções estadunidenses de baixíssima qualidade (em todos os sentidos). Mas quem é que assiste a esses filmes e se preocupa com a “história contada?” As salas dos cinema começaram a fechar. Com o fim da Embrafilme, produtora e distribuidora de filmes nacionais, na década de 90, no governo Collor, o cinema brasileiro, de qualidade, sumiu! 
O filme Carlota Joaquina, de 1995, foi um marco na recente história do cinema nacional. Depois de quase uma década sem produções de filmes brasileiros, ele chegou ao cinema. Um filme que tratava de maneira irônica a época do Rei no Brasil: de 1808 a 1821. Ufa! O cinema nacional ressuscitava! Ainda que de maneira precária, mas com qualidade muito bem efetuada. Esse filme fez os brasileiros se verem novamente nas telas e nas platéias do cinema. 
De Carlota Joaquina, até hoje, 2021, inúmeros e excelentes filmes passaram no cinema. Alguns nomes: “Central do Brasil”, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “A vida invisível de Euridice Gusmão”, “Cidade de Deus”, “Tropa de elite”, “Que horas ela volta?”, “Carandiru”. “Bacurau”, “Homem onça”, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” até os sucessos  sequenciais do então ator Paulo Gustavo em “Minha Mãe é uma peça”. 
Há filmes ruins nacionais? Claro que há. Mas o cinema brasileiro é maior. E tais filmes ruins, em seus contextos de lançamentos e produção também nos dizem algo sobre nossa história. 
 Falar de cinema é falar da História do Brasil. Por isso a importância do cinema nacional para o Brasil e o mundo. Cada filme brasileiro mostra um pouco de nossos rostos, nossas vidas, anseios, e jeito de ser e pensar. Na tela, nossas histórias e a história do Brasil.
Ver filmes nacionais é querer entender esse Brasil tão complexo. 
Alguns sites gratuitos de filmes brasileiros são muitos bons: 
https://embaubafilmes.com.br/https://www.itaucultural
play.com.br/ 
https://www.spcineplay.com.br/ 
Carlos Alberto Xavier 
Adoro cinema. Adoro cinema nacional. Adoro cinema nacional de qualidade!

 

 

A volta ao Cinema e os novos hábitos

A pandemia continua. Máscaras, álcool em gel e cuidados fazem parte de nossas vidas.
Horário: 18h5min do dia 20/05/2021. Cinema Reserva Cultural, na Avenida Paulista. Na bilheteria, não há fila. Cartão de débito na mão: R$ 22,50 (meia entrada-estudante). Verifico que os protocolos de segurança são rigorosos. Álcool em gel lambuzando minhas mãos.

A sessão do filme MEU PAI começa às 18hh40min.
Escolho um lugar no meio da sala. Nem muito perto, nem muito longe da tela.
Ingresso na mão. Ainda dá tempo para um capuccino e um daqueles deliciosos bolinhos, as “madeleines”, da cafeteria.
Na mesinha, olho ao redor da sala de espera: exatamente 1 ano e dois meses desde a última vez que lá fui. A livraria fechou. O restaurante continua funcionando. As coisas mudaram por lá. Mas ainda é CINEMA. CINEMA de rua. Não é CINEMA dentro de um shopping. CINEMA que estou acostumado e CINEMA ao qual eu gosto de ir.  Novamente meu tubinho de álcool em gel é usado.
Hoje, sem pipoca: meu retorno à sala de cinema não foi perturbado por quaisquer distrações. Quero curtir cada momento da exibição do filme. Quero ver até os trailers antes do filme. Tudo importa nesta sessão.
Ingresso na mão. Sala 2. Dou-o ao bilheteiro. “Boa noite” e nos cumprimentamos. Ele rasga o bilhete. Devolve-o para mim. Guardo-o com cuidado. É como se fosse a minha primeira vez.
Sento exatamente na poltrona indicada. Ninguém na minha fileira, nem nas fileiras acima nem na fileira abaixo. Um casal conversa animado numa das fileiras atrás de mim. Uma senhora numa fileira bem lá na frente.
Com calma, na cadeira, aguardo o início da sessão e  molho novamente minhas mãos com álcool em gel.
Na tela, instruções sobre a Brigada de Incêndio. As saídas de emergências continuam no mesmo lugar.
Os trailers! Nunca imaginei que ficaria tão feliz por ver trailers de filmes dentro de uma sala de cinema!
“O seu filme já vai começar”, ouço no alto-falante: E o filme se inicia...
O escuro, a tela grande, o som, a imagem: o cinema! Nenhuma TV se compara a isso.
Não fiquem achando que sou um saudosista; um daqueles que vivem falando: “Ah! Na minha época era melhor”: Cinema é cinema; TV é TV. São meios distintos de expressão:
No cinema: somos levados ao interior do filme, experimentamos as dores e as emoções dos personagens; tudo fica mais “visto e notável” dado o tamanho da tela e a imersão que vivenciamos na sala escura, nós temos de ir ao cinema o que por vezes é uma dificuldade.
Na Televisão: somos envolvidos pela história que nos conta, a imersão do filme é limitada dado o ambiente propício à dispersão, nada se compara à facilidade de acesso aos filmes nas plataformas de streaming.
No cinema, se puderem, ou na televisão, ver filmes é um ato de autoconhecimento visto que nos deparamos com personagens/seres humanos em situações limites que nos fazem pensar: “e se fosse eu que estivesse nessa situação, eu faria o mesmo que o personagem fez? Ver filme é um ato de humanidade, pois conhecemos mais sobre o humano no mundo, por isso a importância de nós assistirmos a filmes feitos em países diferentes, com costumes diferentes, línguas diferentes.
Somos todos humanos. E por sermos todos humanos, devemos nos unir para vivenciarmos a nossa profunda humanidade conjunta. Afinal, a dor ou a injustiça do outro, na tela, pode ser a nossa dor vivida ou a nossa injustiça sofrida, aqui no mundo real.
Seres humanos do mundo, uni-vos por um mundo melhor! E um bom começo é: usar máscaras, não deixar de usar álcool em gel e, se possível, mantenha o distanciamento físico. Vamos acabar com essa pandemia o quanto antes e para vivermos, só que de forma melhor, as nossas vidas. Muito aprendemos com essa pandemia: não cometeremos os mesmos erros! E o cinema nos ajuda a sermos humanos melhores.
Carlos Alberto Xavier

Foto: M.K.